A Deezer anunciou nesta terça-feira (13) um novo recurso que permite aos usuários filtrar músicas geradas integralmente por inteligência artificial. A ferramenta funciona como um botão de ativar e desativar: quando ligado, impede que faixas, álbuns e artistas associados a conteúdo 100% sintético apareçam nos resultados de busca. A plataforma prevê liberar a função globalmente até o fim de 2026.
"Identificamos uma demanda clara dos usuários pela possibilidade de filtrar músicas geradas por IA e, agora, estamos oferecendo a todos a opção de filtrar esse conteúdo de sua experiência de streaming na Deezer e concentrar-se apenas em criadores e criações humanas, caso desejem", afirma Alexis Lanternier, CEO da plataforma. Segundo pesquisa feita pela Deezer em parceria com a Ipsos em novembro de 2025, quase metade (45%) dos usuários de streaming gostaria de ter essa opção.
90 mil faixas sintéticas por dia
O anúncio dá sequência a uma ofensiva que a Deezer iniciou em 2025, quando se tornou a primeira plataforma de streaming a identificar, sinalizar e excluir conteúdo gerado por IA de suas recomendações. A dimensão do problema é grande: a empresa recebe quase 90 mil faixas totalmente geradas por IA todos os dias e, em picos, elas chegam a representar mais da metade de tudo que entra no catálogo. Desde janeiro de 2025, mais de 42 milhões dessas faixas foram excluídas das recomendações algorítmicas e editoriais, e, desde junho do mesmo ano, mais de 14 milhões de álbuns foram sinalizados como gerados por IA.
A tecnologia de detecção é própria da Deezer, com patentes publicadas nos escritórios da União Europeia e dos Estados Unidos em junho de 2026. O sistema reconhece músicas criadas pelos geradores mais populares, como Suno e Udio, e pode ser adaptado a outras ferramentas. A empresa passou também a licenciar essa tecnologia para o mercado, abrindo uma nova frente de receita além do streaming.
Fraude e royalties no centro da questão
Por trás da iniciativa está uma preocupação financeira concreta. A música totalmente gerada por IA ainda representa apenas entre 1% e 3% dos streams na Deezer, mas a plataforma afirma que até 85% dos streams dessas faixas em 2025 eram fraudulentos. Quando detecta manipulação, a empresa retira esses streams do cálculo de royalties, numa tentativa de proteger a remuneração de artistas humanos.
O risco para quem vive de música é real. Um estudo da CISAC em parceria com a PMP Strategy estima que quase 25% da receita dos criadores pode estar ameaçada pela IA até 2028, o equivalente a cerca de € 4 bilhões em todo o setor.
O que pensa o ouvinte brasileiro
A pesquisa Deezer/Ipsos ouviu 9 mil pessoas em oito países, incluindo o Brasil. Num teste cego, 97% dos entrevistados não conseguiram distinguir uma música feita por IA de uma criada por humanos, índice que se repete entre os brasileiros. Talvez por isso a maioria peça mais transparência: 80% acreditam que a música 100% gerada por IA deve ser claramente identificada, e 73% dos brasileiros querem saber quando uma recomendação é de uma faixa feita por IA.
- O Brasil é apontado como o país mais curioso sobre o tema, com 65% de interesse declarado
- 76% dos brasileiros já ouviram música de IA ao menos uma vez por curiosidade
- A Apple Music também anunciou que vai identificar músicas geradas por IA em seu catálogo
O debate divide artistas. Nomes como Dr. Dre defendem o uso da tecnologia como ferramenta criativa, enquanto Kelly Clarkson e Eli Soares questionam seus efeitos sobre a indústria. No Brasil, a Deezer vem ampliando sua atuação para além do streaming: no início do mês, lançou o Deezer Live, projeto de shows exclusivos que estreou com Luísa Sonza.