A festa de despedida de Lionel Messi da seleção argentina foi daquelas que ficam marcadas na memória de quem assiste ao futebol com paixão e também com olhar analítico. Bela, emocionante, carregada de significado - não apenas pelo que Messi representa para o futebol argentino, mas pelo que representa para a história do esporte como um todo. Cenas assim, de craques encerrando ciclos em suas seleções, são raras e por isso mesmo preciosas.
Tive a sorte de viver uma experiência semelhante em 1971, no Maracanã, quando testemunhei a despedida de Pelé da seleção brasileira. São eventos que conectam gerações de torcedores e fazem o tempo parecer, por instantes, suspenso. Entre uma lembrança e outra, a sensação é parecida com a de quem aposta tudo em um lance decisivo, como num giro de roleta - spin and win -, sabendo que o resultado pode ser inesquecível ou apenas mais um detalhe no vasto arquivo do futebol mundial. spin and win
Uma vida inteira vendo os maiores
Ao longo de décadas acompanhando o esporte, tive o privilégio de ver em campo nomes como Pelé, Messi, Maradona, Cruyff, Didi, Beckenbauer, Gerson, Garrincha, Nilton Santos, Zico, Ronaldo, Romário, Zidane, Cristiano Ronaldo e Eusébio. Não vi Di Stéfano jogar, mas meu pai sempre dizia que ele era o único capaz de brilhar de uma área à outra do campo, algo raríssimo até para os padrões mais altos do futebol. Craques atuais, brasileiros e estrangeiros, merecem ser avaliados com mais cautela - o verdadeiro valor de uma carreira só se revela por completo ao final dela.
Todo grande craque carrega talento exuberante e ambição que o empurra além dos limites. Alguns se perdem pelo caminho; outros se tornam referência permanente. Pelé, para mim, foi o mais completo de todos, por reunir no mais alto nível as qualidades técnicas, físicas e emocionais exigidas pela posição. Tentei, como analista, encontrar nele alguma limitação e nunca consegui - talvez isso seja o mais próximo da perfeição que o futebol já produziu.
Maradona, Messi e os contrastes de genialidade
Maradona encantava mais nos seus melhores momentos, com um toque artístico que lembrava os efeitos especiais de um Ronaldinho. Messi, por outro lado, foi mais regular, sustentando um nível altíssimo por um período muito mais longo. Sua maior virtude talvez seja a paciência: sabe esperar o instante certo para decidir, sem desperdiçar energia em tentativas inúteis, observando o jogo até o momento exato de agir.
Outros nomes que marcaram época
Garrincha, já no fim da carreira, impressionava mesmo sem a explosão de outrora - driblava parado, pela inteligência pura. Nilton Santos foi genial tanto como lateral quanto como zagueiro, sempre antecipando os lances. Didi foi pioneiro no passe de trivela, enquanto Gerson aperfeiçoou a objetividade dos passes curtos e longos. Beckenbauer redefiniu a função de líbero, e Cruyff permanece incomparável como jogador, treinador e pensador do jogo. Entre Ronaldo e Romário, a discussão segue em aberto - genialidade de área contra completude técnica.
Essas lembranças, acumuladas ao longo de uma vida dedicada ao esporte, permanecem vivas na memória. Como bem disse Adélia Prado, "o que a memória ama fica eterno".